O saneamento básico e as nossas responsabilidades

A água é condição básica para a existência da vida! Hoje este valioso recurso natural é mais lembrado pela situação de escassez, que nos alerta sobre a necessidade do uso racional. Apesar de contraditório, o Brasil, que é considerado como “a terra abençoada pelos deuses”, possui a maior reserva de água potável do planeta. Mas, a verdade é que não temos visão de futuro, nem qualquer conexão com a responsabilidade cidadã com o planeta.

Um forte componente na manutenção da qualidade da água é o saneamento básico, que depende de muitos fatores, entre os quais da consciência da população sobre a parte que lhe cabe e que, quando cumprida, resulta em menores custos financeiros e ambientais. Fontes de contaminação das águas não faltam, e o problema se agrava com o mau uso das redes públicas coletoras de esgotos e de drenagem pluvial.

O maior gerador de contaminação das águas superficiais e subterrâneas é o esgoto sem tratamento (além da falta de caixas de gordura). Este esgoto é lançado nas redes de drenagem pluvial, trazendo riscos à saúde pública e mau cheiro. E na ocorrência de chuvas, resíduos contaminantes como óleos, plásticos e sujidades diversas, são carreados das ruas e calçadas para os corpos hídricos, o que se traduz em mais uma fonte de contaminação das águas.

As ligações irregulares geram ainda sobrecarga hidráulica no sistema coletor de esgotos, acarretando obstrução, rompimento e extravasamento. Comprometem, por consequência, a capacidade de operação da estação de tratamento, pelo aumento não previsto de vazão. A necessidade de correção do uso das redes coletoras irregulares é urgente, e a fiscalização tem agido neste sentido. Atualmente, a companhia de saneamento do Paraná (Sanepar) também pode aplicar multas, quando do não cumprimento das notificações de regularização.

Com isso, espera-se que seja possível avançar mais. É lamentável, no entanto, que se tenha que aplicar sanções pecuniárias, quando é dever de cada um preservar o meio ambiente. É muito comum a indignação do cidadão quando observa um curso d’água, (córregos, riachos, rios, nascentes, lagos, sem contar o próprio ambiente marinho), com sinais de poluição, principalmente nos centros urbanos.

Contudo, é um equívoco atribuir responsabilidade exclusiva ao poder público. Apenas para ilustrar, anualmente, a prefeitura de Curitiba retira cerca de 3.000 toneladas de lixo e mais 17.500 caminhões caçamba (média de 12m3 cada um) dos nossos cursos d’água. É um esforço contínuo, com elevado custo, para reverter uma situação que traduz a nossa falta de respeito. E não é justo reclamar do sistema de coleta de resíduos domiciliares de Curitiba. Este sistema é tido como exemplar no Brasil, ainda que sem a máxima perfeição. Há muitas possibilidades de solicitação de remoção de rejeitos em diferentes canais e uma constante busca pela conscientização através das atividades de educação ambiental.

É muito grave também o que ocorre em áreas de alta vulnerabilidade social, comuns no território nacional. E legalmente o poder público é impedido de atuar com projetos de saneamento. Em função disso, a calamidade é nítida, com alto risco à qualidade de vida e à saúde da população, devido ao contato direto com esgotos “in natura”, lançados nas vias e vielas, poluindo o solo e os corpos hídricos.

O poder público e outros atores sociais deveriam se concentrar neste assunto para encontrar soluções, ainda que paliativas, com sistemas alternativos e temporários, evitando a ocorrência de doenças e a insensatez com a poluição ambiental. Afinal, temos um sistema de subsídios com tarifas diferenciadas e a conta já é nossa. De nada adiantará o novo marco regulatório do saneamento do Brasil, sem que esta camada da população seja integrada ao processo. A natureza e a cidadania agradecem.

Por Marcos Traad

Marcos Elias Traad da Silva é Zootecnista, Doutor em Processos Biotecnológicos Industriais pela UFPR e atual Diretor Técnico do Grupo Cataratas. Ao longo de quase quatro décadas no serviço público, liderou equipes em órgãos como o DetranPR e o IAPAR. É membro fundador da Academia Brasileira de Zootecnia (Acbz), onde colabora para a promoção de estudos e pesquisas na área, unindo experiência em gestão, inovação e sustentabilidade.

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